quarta-feira, 27 de março de 2013
Correria
Com a garganta seca e os olhos ardendo, ela corria. Corria, corria, corria. Tanto que suas pernas não saberiam mais parar. Corria especialmente porque não sabia para onde ia. Só sabia que não podia mais permanecer, ficar, continuar. Corria tão rápido que nada à sua volta existia. Tudo era borrão. Mas qualquer borrão era melhor do que aquele vazio em que costumava estar mergulhada. Aquele monte de nada que a sufocava. A velocidade do seu pensamento acompanhava agora a velocidade das suas pernas. Como que para tirar o atraso causado por aquele pensamento único que por tanto tempo a havia assombrado. Morrer não era mais uma possibilidade. Naquele deslocamento acelerado e desenfreado a morte nunca a alcançaria. Pensou em tudo que poderia ter sido e em tudo que ainda seria. Pensou em todos que vieram antes dela para que ela estivesse ali correndo como o sangue nas suas veias, e desejou que houvesse alguém que a sucedesse um dia. Correu tanto que deu uma volta inteira no mundo. Nem notou quando passou pelo seu ponto de partida. Não conseguia ter tempo de sentir fome, cansaço ou frio. Deu voltas e voltas. Seu repertório de pensamentos gastou mais rápido do que ela pensava. Um pensamento único voltou à sua cabeça. O mundo inteiro passando era o mesmo que nada. Nem o borrão ela enxergava mais. Correr era o mesmo que estar parada. Não era morte. Mas também não era vida.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
Me bate!
-
- Ela- Me
bate!
- Ele- O
que?
-
Ela- Dá um tapa na minha cara.
-
Ele- Tá maluca, amor? Eu não vou te bater.
-
Ela- Por que não?
-
Ele- Vai ficar todo mundo olhando.
-
Ela- Só por isso?
-
Ele- Claro que não. Eu não quero te machucar.
-
Ela- Ah...
-
Ele- Quer comer minha batata frita?
-
Ela- Quero.
-
Ele- Toda sua.
-
Ela- O que você acha daquela mulher ali?
-
Ele- Que mulher?
-
Ela- Aquela sentada na mesa do lado da lixeira.
-
Ele- Sei lá. Não acho nada. Normal.
-
Ela- Normal? Não sabe nem disfarçar.
-
Ele- Disfarçar o que?
-
Ela- Que você tá doido pra ir lá pedir o telefone
dela.
-
Ele- Que nada. Eu te amo, amor. Nem tinha olhado pra
mulher. Só olhei porque você pediu.
-
Ela- Pode ir lá.
-
Ele- O que você tem hoje?
-
Ela- Nada. Estou dizendo pra você ir lá dar um beijo
nela.
-
Ele- Deve ser febre. Deixa ver se você tá quente.
-
Ela- Eu não estou quente coisa nenhuma!!!
-
Ele- Ah.... Já
entendi. Vou comprar um chocolate para você que melhora rapidinho. Aliás, que
tal eu te dar o seu presente agora.
-
Ela- Ótima ideia!
-
Ele- Aqui. Parabéns, meu amor! Espero que você goste.
-
Ela- Ai, meu Deus! Numa caixa de joias! Melhor não
abrir... Vamos fazer o seguinte? Vou te dar uma segunda chance. Devolvo isso
pra você, finjo que não vi, vou ao banheiro e você vai lá correndo comprar um
liquidificador para me dar.
- Ele- Tá. Agora você passou dos limites. Para de
brincadeira. Tá me magoando.
-
Ela- Eu estou te magoando? Eu faço de tudo pra você me
dar uma razão pra eu terminar com você sem ter que te contar o real motivo pra
não te magoar e você fica aí com essa cara de idiota negando tudo que eu peço.
Aliás, obrigada. É isso aí. Meu querido me desculpa, foi maravilhoso enquanto
durou, mas eu tenho que terminar com você porque você não faz nada do que eu te
peço!!!!
terça-feira, 26 de junho de 2012
Jura!!!
Jura que é para sempre? Eu não me importo se um dia você vai me abandonar, contanto que jure, até o último minuto, que nunca vai. O que eu não posso é viver com meia certeza. Eu preciso de uma certeza declarada aos quatrocentos ventos, publicada no mural, selada com beijos de olhos fechados, com o braço da poltrona levantado no cinema, descrita em sonetos sem norma culta, sem culpa, sem pudor. Diga que eu sou o mais dos mais que você já viu na vida, que nunca sentiu amor igual, que nunca desejou tanto, admirou tanto, sofreu tanto de saudade. A verdade é um detalhe que não vale a pena mencionar. A sinceridade de nada me serve no presente. Talvez seja útil para me ajudar a te fazer virar passado quando nosso amor não for mais possível. Para eu desacreditar em você e me deixar enganar por outra. Mas, por enquanto, esquece os sábios conselhos. Me engana que eu gosto. Jura que é para sempre e me deixa ser feliz por inteiro.
segunda-feira, 30 de abril de 2012
Significado do nome Marcela
Não sou aquela que vem de Marte
Não acho que pareça com um martelo
Tampouco sou o feminino de Marcelo
Mas sei que o meu Corpo é uma Cela
Inundada pela minha Alma Mar
Que a Cela é preenchida
Mas não consegue conter todo o Mar
O Mar transborda e vai muito além
Da sua parte visível porque contida na Cela
Sou eu a união temporária desses dois elementos
Porque o tempo corrói a Cela pouco a pouco
Um dia suas barras hão de arrebentar
Mas esse Mar temperamental
Ora calmo, ora revolto
Permanecerá porque é eterno
E almeja um dia ser puro e cristalino
Para não mais em Celas precisar se aprisionar
E correr livremente junto com o oceano de Mares que há
Não acho que pareça com um martelo
Tampouco sou o feminino de Marcelo
Mas sei que o meu Corpo é uma Cela
Inundada pela minha Alma Mar
Que a Cela é preenchida
Mas não consegue conter todo o Mar
O Mar transborda e vai muito além
Da sua parte visível porque contida na Cela
Sou eu a união temporária desses dois elementos
Porque o tempo corrói a Cela pouco a pouco
Um dia suas barras hão de arrebentar
Mas esse Mar temperamental
Ora calmo, ora revolto
Permanecerá porque é eterno
E almeja um dia ser puro e cristalino
Para não mais em Celas precisar se aprisionar
E correr livremente junto com o oceano de Mares que há
terça-feira, 17 de abril de 2012
Saudade
Se arruma como quem tem pressa
Lança um olhar de não sei quem é você
Se perfuma para me impregnar
Me beija nos lábios para me confundir
Me cospe para eu não implorar
Me ofende para não perder o costume
Jura que nem sabe o que é amor
Diz que não foi bom para deixar saudade
Toma de volta tudo que me deu
Joga na cara todos os meus defeitos
Se delicia com as minhas lágrimas
Devora a minha autoestima
Garante que não vai mais me ver
Parte como quem nunca quis ficar
Me deixa sozinha juntando os pedaços
Depois volta, me toma, me dobra, me satisfaz
E faz tudo de novo como quem sempre quer mais
domingo, 15 de abril de 2012
"A Pedra" ou "Minha singela homenagem a Carlos Drummond de Andrade"
Era uma vez uma moça e seu caminho. Tinha escolhido qual
seguir e o seguiu livremente até o fim. Chegando lá, não sentiu nada. Não tinha
a graça que pensava que teria. Tudo tinha sido tão fácil. Podia escolher um
novo caminho como continuação daquele, mas ficou com preguiça. Se acomodou onde
estava. Afinal, para que andar mais se isso não gerava nenhuma satisfação? Não
foi infeliz, mas também não soube dizer se foi feliz.
Era outra vez outra moça e seu caminho. No meio do caminho
tinha um buraco. Um buraco que não dava
para pular ou contornar. Ela tentou, tentou, mas não conseguiu passar. Triste
que estava, deu ré e escolheu outro caminho. Sabia que não era exatamente o seu
caminho. Mas o que podia fazer? Soube de outras pessoas que não tinham
encontrado obstáculo nenhum. Soube também de algumas que tinham encontrado obstáculos
mas que, com a esperança e a persistência, tinham conseguido superar. Mas ela
tinha certeza de que nenhum deles tinha encontrado um buraco como o seu.
Impossível de ultrapassar. Se conformou com o seu novo caminho confiando que
aquele devia ser o seu destino e que, embora não fosse o que ela tinha
escolhido, seria para o bem. Dessa maneira, conseguiu seguir com alegria. Mas
no meio do novo caminho tinha uma pedra. Tinha uma pedra no meio do caminho.
Uma pedra que não dava para ultrapassar. Mas será possível tanto azar? Por que
justo ela não conseguia seguir em frente tranquilamente como todo mundo? Sentou
e chorou por três dias sem parar. Se revoltou com a divindade que permitia
aquela injustiça. Quando as lágrimas secaram e viu que de nada adiantavam,
começou a pensar, pensar e testar todas as possibilidades. Depois de seis dias
de trabalho infrutífero, teve um estalo. Pegou a pedra e foi rolando ela para
trás andando de ré mais uma vez. Chegou ao ponto de onde tinha partido e
enxergou seu antigo caminho. Estava muito cansada, mas não quis parar para
descansar. Trilhou seu caminho dos sonhos empurrando sua pedra que, como ela
esperava, encaixou perfeitamente no buraco. Enfim, ela pôde passar e viu que o
outro lado era tudo que esperava. Sentiu tamanha satisfação que tinha vontade
de pular sem parar. Se achou a pessoa mais sortuda do mundo. Uma vez alcançado
o que seria o fim, pensou novas trilhas para continuar seguindo em frente rumo
ao desconhecido, sem medo de pedras e buracos. E sabendo que, às vezes, os
desvios do caminho são partes do caminho e que caminhar é delicioso mesmo com
todas as dificuldades.
terça-feira, 10 de abril de 2012
Estátua
Ela estava andando em direção ao supermercado quando, de
repente, seu coração parou. Ou foi isso que pareceu que estava acontecendo na
hora. Sem dar mais um passo, olhou em todas as direções, começou a suar frio e
pensou que ia desmaiar. Como depois de um minuto infinito ela continuava de pé
e congelada, achou por bem gritar. Não para pedir ajuda, mas para verificar se
era capaz. Esqueceu-se de abrir a boca e o som bateu e voltou, enchendo seus pulmões
de desespero. A multidão que passava por ela na rua mais movimentada do bairro
nem parecia notar aquela estátua viva sem fantasia. Por isso mesmo, ninguém
parou para ajudar. Algumas horas se passaram e ela continuava ali, sem ser mais
capaz de mexer um músculo voluntário sequer. Seus sentimentos foram se transformando.
Depois de tanto tempo, sabia que não desmaiaria mais. Ou será que desmaiaria de
fome? Mas a agonia foi dando lugar a uma paz estranha. Do desespero ela passou
a um tipo de meditação. Observou tudo que estava fora. Para cada um que passava,
ela inventava internamente um nome e uma pequena historinha. Passaram por ali a
Beatriz que estava indo buscar o filho na escola, o Mário que estava voltando
de um encontro com a amante, o Augusto, coitado, que tinha acabado de ser
demitido, a dona Laura que não sabia de onde vinha e para onde ia, o Josué
que na falta de namorado passeava com os cachorros e mais um mundão de gente
que ela conheceu sem se apresentar nem se mexer. Com o cair da noite, a rua foi
ficando cada vez mais vazia. A brincadeira já tinha dado o que tinha que dar e
nada de conseguir sair daquele estado de imobilidade. Passou a olhar para
dentro. Revisitou o seu passado, suas saudades, suas lembranças mais prazerosas,
suas frustrações. Lembrou-se do futuro que ela esperou e nunca aconteceu.
Perdoou a si mesma por todos os erros cometidos, por todas as lágrimas vãs e
pela falta de coragem para fazer o que era preciso às vezes. Olhou no fundo dos
olhos da sua própria humanidade, tão imperfeita, mas aceitou o que viu.
Conseguiu, usando o que parecia ser toda a sua força, virar para o lado e se
deparou com a prateleira de chocolate. Mas ela não tinha ficado congelada no
caminho durante todo o tempo? Pensou. Como chegou onde queria sem dar nenhum
passo? É claro que tinha dado não um, mas muitos, sem se dar conta do
movimento. Pensando que estava parada ela caminhava para o seu objetivo. Ao se
dar conta, todos os músculos foram desenferrujando e conseguiu se movimentar
até com mais leveza e graciosidade do que antes. Comprou dez barras do seu
chocolate preferido e voltou para casa cantando bem alto sem se importar com o
que os outros iriam pensar.
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